quarta-feira, novembro 09, 2005

Saúde, conforto e cultivo

Há doenças da modernidade e ultra-modernos remédios e tratamentos, ao lado de diversos outros, mais antigos, até ancestrais, ainda em uso ou de volta a ele. No entanto, a modernidade não é, necessariamente, incompatível com a saúde. O que é incompatível é a posse e a propriedade, como valores motivadores das ações humanas.

Desembaraçada dessas ataduras, a vida prossegue em direção à eternidade e à bem-aventurança. O conforto isento de posse e propriedade é constante. O prazer, mais doce e mais intenso, além de ser escolha, não falta dela. A saúde é o estado fundamental resultante do conforto, do bem estar e do prazer de viver.

Meu conforto e meu prazer estão em mim, em todos os aspectos do meu ser. Nada fora de mim pode motivá-los ou melhorá-los. Não dependo de nada de fora, a não ser um ambiente rico em vida igual à minha vida. Plantas, frutas e flores, animais, terra, ar, água e sol. E não em doses simbólicas, mas em franco processo de transformação. Vida em processo contínuo e intenso. Isto é saúde.

Com este estado de ser, meu conforto e meu prazer se mantêm mesmo na relação com os sistemas culturais, indevidamente tachados, por vezes, de artificiais. Não dependendo deles para meu bem estar, posso tirar deles apenas o suficiente para contrabalançar as pressões impostas por eles mesmos. Sem a pressão da posse e propriedade, e suas pseudo-necessidades derivadas, os ambientes tanto orgânicos quanto culturais podem manter-se em processos estáveis, mais propícios ao surgimento de novas e ricas relações - que poderão potencializar os processos e os ambientes em que ocorrem ou até transformá-los em algo diverso, com novas formas de organização biológica e cultural. A vida floresce.

É esse ambiente que eu escolhi cultivar. Apenas cultivar aqui dentro, com a certeza de frutos doces, sem ansiar por eles, sem ser dono deles. É esse ambiente o que eu ofereço à minha filha por nascer, que faz parte do meu ser.

Se a vida contemporânea aponta para o fim inexorável da vida, ainda que seja daqui a muitas gerações, então não faz o menor sentido. Mesmo sendo resultante da mesma cadeia de eventos que nos legou as características com que nos distinguimos das outras formas de vida, e pelas quais podemos fazer escolhas, não faz sentido.

Por isso busco outra forma de viver. Não quero combater nada à minha volta, nem isolar-me. O processo da vida, seja como for, não pode ser detido. Se tenho de me relacionar com o mundo que é assim como é e não vai mudar só porque eu pedi, não há problema. Trabalho, respeito a ordem instituída e pago os tributos. Mas não vivo com essas motivações, nem da posse e propriedade, nem de seus prazeres e confortos, nem das instituições que os perpetuam. Vivo com a certeza de que a transformação está em curso e, neste processo, os frutos das minhas escolhas serão saborosos.