domingo, dezembro 05, 2004

Karmayoga na Triká

Ao ouvir falar em karmayoga, muita gente associa imediatamente alguns conceitos que foram bastante repetidos nos últimos milênios, mas não completamente explorados. Não pretendo entrar na complexidade deste assunto neste momento, mas apenas evidênciar o que significa o termo na Triká. Entretanto, para isso, convido-o a uma rápida análise de um erro costumeiro na sociedade em que vivemos e de uma contradição metodológica.

Karma significa ação. Ação pura. Pura e simplesmente ação. Normalmente, quando pensamos em ação, logo nos vêm à mente outros conceitos relacionados, como o agente, as motivações e os efeitos. Mas estes não estão incluídos na palavra karma, ao pé da letra.

A primeira e mais grosseira confusão vem do viés ocidental que a palavra carrega. Vem da idéia de que karma seja uma pontuação obtida em vida terrena através de ações boas, más e neutras. Por causa desta idéia, algumas pessoas acham que karmayoga possa ser a prática de boas ações para aumentar o resultado positivo (ou diminuir o negativo) daquela pontuação.

Esta confusão é facilmente desfeita pela definição mais comum dentro de um contexto não enviesado, sem mesmo entrar nas sutilezas da definição de karma: karmayoga é "ação desinteressada, desapegada dos frutos dela". Ouve-se muito esta colocação quando se fala em caridade (quando não motivada pelo erro grosseiro supra citado) e em organizações não-lucrativas, o que não está de todo errado. Mas não é karmayoga e sim renúncia, que é uma outra prática, completamente distinta (e que pode até ser feita, incorretamente, com objetivos pessoais; o assunto renúncia também causa diversas confusões e será discutido opotunamente).

Mas já aqui pode-se antever uma contradição, gerando angustia e frustração, pois como se pode desapegar dos frutos da ação, se ao se mencionar (ainda que mentalmente) este conceito, a primeira coisa que vem à mente é que toda ação tem conseqüências - frutos - e, em seguida, uma enumeração destas mesmas? E ainda que não se pense nisto no momento da execução, pensou-se no momento da decisão - até porque é justo que as ações sejam pré-avaliadas para que não causem, por falta de previsão, males desnecessários ao Ser, seja na forma de outros indivíduos, animais e objetos materiais, seja na forma de nós mesmos. E também é contraditório o fato de que toda ação é motivada pela vontade, Suprema ou terrena, com objetivos, bem ou mal, determinados.

Ou seja, o mero conhecimento da definição nos impede de praticar corretamente o karmayoga. Seria este uma benção reservada àqueles que nunca lhe ouviram o nome? Ou, alternativamente, agimos - o que é um aspecto integrante do Ser - sem a devida concorrência da vontade e do conhecimento - também aspectos fundamentais do Ser.

Para vencer esta contradição, a Triká estabelece a prática do karmayoga em função da tríade fundamental: os níveis do Supremo, do Adepto e do Terreno do Ser; e a partir do conceito mais puro: karmayoga é yoga da ação, ou yoga na ação; ação pura; e yoga puro: atenção focalizada.

O objetivo terreno é aquele da definição conceitual, intelectual. Mas este caminho é contraditório, como mencionado acima. A Trika propõe a prática do karmayoga nos níveis do Adepto e do Supremo, posto que no do Terreno, a profundidade de realização do karmayoga é limitada pela profundidade conseguida nos outros níveis.

Inicia-se pela prática no nível do Adepto. Deve-se praticar com auxílio do silêncio interior. No início, isto significa silêncio verbal também - Mauna, outra prática a ser abordada futuramente - além de ser possível apenas em atividades passivas, como deixar-se levar por um ônibus, ou automáticas, como caminhar. Caminha-se em silêncio. Viaja-se de ônibus em silêncio. Alimenta-se em silêncio. Põe-se e permanece-se em ásanas em silêncio. Além do silêncio verbal, também o psíquico - mental e emocional. Apenas observa-se e contempla-se o Ser Supremo, conforme instruído pelo seu Mestre. Esta prática é muito mais poderosa do que a da meditação isolada, ainda que diária e profunda, mas em meio a um dia completo de não observância deste silêncio. Vai, inclusive, dar maior firmeza e solidez à pratica da meditação, potencializando-a profundamente. Após algum tempo de prática, ações cada vez mais complexas poderão ser realizadas na forma de karmayoga.

Quando está terminada a ação (ou seqüência de ações) realizada desta forma e não há engajamento subseqüente em outra ação, pode-se entrar ou não no nível Supremo deste yoga na ação, ao sentar-se para meditar. A possibilidade depende da espontaneidade e continuidade ininterrupta da prática anterior. Não há como forçar a entrada no nível Superior. Ela ocorre naturamente em função da prática, decorre dela. Se não ocorrer, deve-se praticar ainda mais e melhor, no nível yogi.

Assim como o nível Supremo é decorrente do anterior, o nível Terreno será decorrente deste e, então, poder-se-á até mesmo conversar e gargalhar permanecendo-se consciente do Ser. E então será fácil realizar qualquer ação terrena, com a atenção focalizada no Ser, estabelecido no Ser, desapegado de frutos e conseqüências. Novamente, se isto não ocorrer naturalmente, deve-se praticar mais no nível de prática - ou seja, no nível do Adepto, já que no Supremo não há o que se praticar.



baseado em trecho de [LAKSH/KS]